Os refugiados que vi em Budapeste



Escrevo no calor dos acontecimentos porque caí no “olho do furação” da movimentação dos refugiados na Europa no mês de setembro que se encerrou. Eu fui conhecer a terra da avó húngara, que veio para o Brasil na condição de refugiada e apátrida, com a divisão da Hungria em três territórios após a primeira guerra mundial. Estávamos visitando a cidade no momento deste grande acontecimento. A cena que vimos mexe com nossos porões, torna-se difícil observar e assistir sem se emocionar, e depois permanecer na condição de observador.

A viagem estava marcada para o mês de maio, foi adiada para setembro por questões de agenda de trabalho. Deus estava preparando mais uma lição: cada situação, cada cena presenciada, levava a pensar: se faço a oração pedindo a Deus pra não me deixar de fora daquilo que Ele está fazendo no mundo, Ele faz isso: me trouxe pra ver o que está acontecendo neste mundo! A questão agora é decidir: seguir a vida do mesmo jeito de antes, ou perguntar ao Pai o que Ele quer fazer neste momento nesta situação? Não dá pra ficar na mesma! Todo este deslocamento vai mudar o mundo, o mundo não será o mesmo após estes eventos, a história já mostrou isso em diversos períodos.

Por cada lugar que eu passava, cada acampamento, cada estação, cada grupo que via, a visão se abria, perguntas e mais perguntas eram colocadas. Como absorver culturas tão diferentes? A proteção destas crianças e adolescentes nas grandes cidades? É sabido que desde a saída deles da terra, são explorados por “atravessadores”, meninas já são separadas para serem vendidas, em alguns lugares já foi denunciado que existem olheiros preparados para cooptar os mais frágeis para ações das mais ignóbeis. Respostas? Não se pode dar de pronto, algumas coisas pode-se pressupor, e uma delas é que as fronteiras estão se acabando, ou se acabaram de vez! Não dá pra segurar os deslocamentos.

Como cristã vivendo neste tempo e presenciando estes fatos, pesaram em mim as palavras de Jesus: “Quem é o teu próximo?”. Eles estavam ali, à minha frente, eles eram o meu próximo. Logo decidimos contatá-los e ajudar pelo menos uma família. Eram muitas crianças, mulheres, e impressionava o número de homens. Tentava entender porque a grande maioria é de homens: fugindo do serviço militar? Escondendo de ser alvo dos radicais? Seria a lei do mais forte – homens conseguem com mais facilidade superar situações de crise? Lições tiramos, com certeza.

Presenciei o que a imprensa tem mostrado em relação à rotina nos pontos preparados pelos governos para recebê-los. Algumas cenas de violência são veiculadas, mas não são comuns; trata-se de sensacionalismo para dar audiência ou vender, mas o papel da imprensa tem sido fundamental para que seja realmente dado um tratamento digno e de acordo com as convenções internacionais.

Pudemos ver acampamentos provisórios setorizados: barracas com doações de brinquedos, sapatos e roupas onde as mulheres escolhiam por cores ou tamanhos. Espaços livres onde os jovens jogam e crianças brincam. Local central onde são servidos refeições, café. Vários voluntários identificados ajudam em diferentes serviços, até como intérpretes. Policiais ficam à volta. Algumas famílias dentro das barracas improvisadas.
Acompanhamos o embarque de um grupo na estação de trem Keleti, em Budapeste, que estava sendo enviado para a fronteira com a Áustria. No momento do embarque, policiais delimitavam a área por onde eles poderiam passar, colocaram fitas brancas que separavam o grupo dos outros passageiros e marcavam onde o grupo ficaria, e policiais faziam o controle da operação. Outros passageiros embarcaram primeiro. Depois veio a ordem de que eles poderiam subir: era um bloco compacto, a grande maioria de cabeça baixa… até as crianças. Algumas carregavam um brinquedo. Os adultos, no máximo, uma mochila. Os rostos refletiam pensamentos de tristeza e dúvida do que os aguardava. Era claro o sentimento de tristeza e “deixei tudo para trás”.

Não se ouvia uma palavra. Talvez tivessem sido orientados ao silêncio? Não sei. Cheguei até a pensar: será que este embarque representa para eles uma busca por vida melhor ou seria somente desespero? De qualquer forma, agora o que valia era a vida, chegar a um destino aonde possa viver sem bombas e riscos de morte a todo momento.

Alguns não conseguiram ir com este grupo. Jornalistas à volta dos que ficaram solicitavam entrevistas. Um voluntário me ajudou com interpretação. Conseguimos comprar vários tickets para distribuir entre os que não tinham condições.

Esta crise imigratória sem precedentes abala fronteiras, políticas públicas e destrói vidas. Uma geração inteira na Síria pode se perder por traumas de guerra e por falta de cuidados e educação. Muitas perderam a infância, o lar e educação. É nossa responsabilidade ética, como cidadãos dos céus, primeiramente, mas também como parte de um mundo globalizado onde o que afeta um país, afeta a todos. Atualmente, a Europa se vê obrigada a repensar sua estrutura de fronteiras, algo feito pelo bem dos europeus, mas que hoje os faz sentir “frágeis e inseguros” diante de tão grande fluxo populacional.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados declarou que a guerra na Síria, teve como consequência o lamentável fato de mais da metade da população estar na condição de refugiada ou está deslocada internamente, o que se tornou a maior desgraça conhecida pela nossa geração. A guerra síria entrou pelo quinto ano, e suas consequências abalarão o mundo como um todo.

Os signatários da Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, de 1951, são responsáveis por acolher, desenvolver programas e garantir a vida dos refugiados. Entretanto, diante da crise econômica que afetou a Europa a partir de 2008, e do grande número de refugiados e de suas necessidades, resta-nos mais perguntas: como um país que já enfrenta dificuldades internas poderá acolher refugiados da melhor forma? Como garantir condições de vida de refugiados se os cidadãos sofrem por falta de melhorias? Essas são perguntas que nos remetem à criação da ONU, um órgão concebido com o ensejo de que todos participassem do desenvolvimento da “paz mundial”, pois o alvo maior de todos era um local de discussão e resolução de problemas, a fim de evitar futuras desgraças. Porém, falhamos em evitar tamanha crise.

Esta crise migratória atual é responsabilidade de todos e os desdobramentos dela ainda não estão previstos, mas os países e todos os cidadãos devem se abrir para o tema e entender que todos somos parte dela, e ainda que a Convenção de 1951 queira garantir isso, ninguém previu a magnitude dos acontecimentos, e países fronteiriços não estavam preparados para ela, ou seja, as fronteiras do Oriente Médio estão mais frágeis, há o crescimento da insegurança e aumento de conflitos internos na região, e insegurança que atinge o mundo.

O que nós, igreja de Cristo podemos (e devemos) fazer? Este assunto mexe com nossas entranhas por nossas referências e códigos de ética. A Bíblia é um texto de um povo em situação de diáspora para pessoas em situação de peregrinação. Somos um povo em situação de trânsito, vivendo no provisório. Aqui não é a nossa pátria.

Por ter vivido numa região de guerra durante 17anos em Angola, sofremos deslocamentos internos e muitas outras consequências de um conflito armado. O filme voltou. A pergunta que ficou e o sentimento que predominava em mim ao ver aqueles refugiados em Budapeste eram: o que é chegar em casa? A crise migratória nos remete a esta reflexão: o que é se sentir em casa? A Palavra de Deus nos adverte a não esquecer que somos peregrinos e aguardamos a nossa pátria celestial. Estamos no provisório. Ansiamos pela vida plena prometida. Isso nos identifica com os refugiados, temos em comum o fato de que somos peregrinos, todos estamos na diáspora. O cristão não pode se alienar desta discussão, sendo brasileiro, então, mais uma razão, uma vez que o Brasil recebeu gente do mundo inteiro, em diversas situações e condições.

O caminhante pode buscar qualidade de vida sem perder suas prioridades de completar a jornada. Às vezes, nos concentramos demais em aprofundar raízes, e a acomodação toma conta. Esquecemos a razão da nossa existência como cristãos. A consciência da situação de transitoriedade deve nos remeter a uma reflexão sobre o sentido da nossa vida aqui no planeta: contribuir para o cumprimento do propósito de Deus para o mundo. Perigoso será quando nos sentirmos em casa onde estamos.

• Analzira Nascimento é autora de Evangelização ou Colonização?, é missionária da Junta de Missões Mundiais e serviu em Angola por 17 anos durante a guerra civil naquele país. É doutora em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Integra a coordenação do Vocare.

?FONTE: http://www.ultimato.com.br/conteudo/os-refugiados-que-vi-em-budapeste